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27 de novembro de 2013

Onde é Felicidade?

destino

   Estacionei meu carro e respirei fundo. Encostei a cabeça no banco, fechei os olhos e me perguntei o que cargas d'água eu tava fazendo ali. Quando nos contaram sobre essa tal felicidade largamos tudo e fomos atrás dela. Algumas coisas na mochila, um mapa e a intenção de ser feliz. Ser feliz em Felicidade faz sentido, não?
   Os dias passaram, a gasolina foi e voltou e nada. Nossas economias já estavam acabando e, apesar de não falarmos sobre isso, sabíamos que pra desistir seria uma questão de dias... Talvez menos de uma semana.

- O que aconteceu? Porque paramos? - A voz rouca de sono que invadiu meus ouvidos era do Carlos, meu colega de trabalho e companheiro de viagem.

   Acho que depois dessa experiência toda não é muito justo chamá-lo apenas de "colega de trabalho". Dividimos quartos em hotéis e muquifos, revesamos na direção do carro e tivemos apenas um ao outro durante um mês inteiro.
   Ele estava comigo quando Magda, uma colega da empresa, falou sobre Felicidade. Era sexta-feira e estávamos na happy hour quando ela descreveu as férias maravilhosas que ela teve.

- Foi maravilhoso, ainda é maravilhoso! - Ela suspirou e tomou mais um gole de refrigerante - Nunca imaginei que seria tão bom assim. Ser feliz, sabe? - sorriu, mostrando seus dentes grandes - Pensar que depois de tantos anos iria descobrir o real sentido da vida ali, naquela cidadezinha. - olhou para o anel de noivado que agora habitava seu dedo anelar - Felicidade! - sussurrou e ergueu os olhos pra gente novamente - Espero que vocês também a encontrem, assim como eu.

   Um tempo depois o noivo dela passou lá para pegá-la, as pessoas começaram a ir embora, apenas Carlos e eu sobramos. Não era a primeira vez que sobrávamos na mesa. Sorte minha que ele era um cara bacana e  a conversa sempre fluía bem.

- Vem comigo. - ele disse de repente.
- Hum? - franzi a testa e olhei pra ele.
- Vamos encontrar Felicidade. - comecei a rir e ele continuou - Sério, nossas férias estão pra sair... a gente tem um mês.
- E você sabe onde é? - me interessei, até porque minha melhor opção pras férias era ficar no sofá o dia todo.
- Não, mas a gente descobre, joga no google, pega um mapa.

   E aqui estamos nós,  as férias quase se esgotando e nenhuma cidadezinha com  placa "Bem Vindo a Felicidade" a vista.
   Senti o carro se mexendo e percebi que que Carlos pulara pro banco da frente, abri os olhos e virei pra ele. Continuei olhando enquanto ele se ajeitava. No começo foi uma viagem estranha, tirando as happy hours nas sextas, não tínhamos contato fora do trabalho, muito menos intimidade. Mas logo nos acostumamos um com o outro e criamos uma amizade.

- Você quer desistir, né? - percebi que ele já se ajeitara e agora me olhava.
- Só to cansada e acho que não vamos chegar em lugar nenhum... - suspirei. Olhei pra frente e estiquei meus braços pra cima, me alongando - E mesmo se a gente chegar lá. - eu não acreditava que isso aconteceria, mas ele não precisava saber. - Não vamos ter tempo pra fazer nada, conhecer o lugar... Não sei se vai adiantar. - virei pra ele novamente.
- É... - ele estava dando atenção ao painel do carro. - Você tinha razão quando disse pra perguntarmos.

   Eu tive que rir, me lembrando de como ele se recusara a pedir explicações, perguntar o caminho.

- Você é homem, não é algo que possa evitar.

   Ele começou a rir e voltou a olhar pra mim. Quando ele ria surgiam covinhas nas bochechas dele. Nunca havia reparado nisso antes, acho que nunca tinha visto ele rir no serviço. Mas na viajem... Nossa, aquelas covinhas me atingiam como um raio quando ele ria. E nós rimos muito a viagem inteira. Rimos, contamos estrelas, pagamos mico, conhecemos pessoas e novos lugares. Realmente foi um mês inesquecível, onde fiz coisas para as quais outrora não tivemos tempo.
   Carlos e eu experimentamos pratos novos, sentimos o vento bater no nosso rosto e bagunçar os cabelos, sentimos o cheiro e o barulho da chuva. Vimos o sol nascer e depois se por. Tínhamos como regra manter o bom-humor nos momentos mais difíceis e procuramos o melhor de cada situação. Se o carro quebrou no meio da estrada, o que mais poderíamos fazer, além de agradecer pela chuva que caia e nos refrescava?

- Eu não me arrependo. - me dei conta que estava perdida em memórias quando ele voltou a falar. - Da viagem, eu quero dizer. - se explicou.
- Eu também não - sorri ao perceber que aquilo era verdade - Fazia tempo que eu não me divertia ou sorria tanto.
- Sim... Quem sabe nas próximas férias a gente não possa tentar de novo - o rosto dele foi ficando corado e, pelo aumento na temperatura, imaginei que o meu também. - Quero dizer, não podemos desistir de encontrar Felicidade. - ele riu e eu o acompanhei.
- Ta combinado então. - disse tímida, tentando controlar meu sorriso.
- Ok! - ele abriu aquele sorriso enorme e as covinhas apareceram novamente.


   Ás vezes achamos que Felicidade é um lugar onde temos que chegar. Um caminho a pegar, um novo produto a adquirir. Uma meta, o pico de uma montanha. E assim esquecemos de ver e deixamos de perceber que Felicidade ta mais pra estado de espírito e pra momentos especiais do que pra cidadezinha.
   E que bom que Felicidade não é um lugar, porque o que faríamos depois de chegar lá? E quando chegasse a hora de ir embora?

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